O trauma é uma das razões mais difíceis de trazer a uma primeira consulta — em parte porque muitas pessoas receiam que a terapia signifique ter de contar tudo, em detalhe, a alguém que acabaram de conhecer.
Convém dizer isto logo no início: não é assim que se trabalha.
O trauma não é apenas uma memória
O trauma pode manifestar-se de formas muito diversas: memórias intrusivas, evitamento, dificuldade em confiar, reações emocionais intensas ou uma sensação persistente de perigo.
Mas o trauma não é apenas o que aconteceu — é o impacto que ficou, a forma como reorganizou a relação consigo, com os outros e com o mundo.
Compreender o trauma desta forma, como uma experiência que moldou padrões de resposta, é o ponto de partida de abordagens contextuais como a Psicoterapia Analítica Funcional (FAP) e a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT).
Não é preciso que tenha sido "suficientemente grave"
Uma das razões mais comuns para adiar ajuda é a comparação. Houve quem passasse por muito pior. Não foi assim tão grave. Já passou há anos.
O critério clínico não é a gravidade objetiva do acontecimento. É o impacto que continua a ter no presente.
Trauma não se limita a acontecimentos únicos e dramáticos. Pode resultar de experiências repetidas ao longo do tempo — negligência emocional, humilhação continuada, ambientes familiares imprevisíveis, relações de controlo — que raramente são reconhecidas como traumáticas precisamente por não terem um momento único identificável.
Este tipo de história, por vezes designada trauma complexo ou relacional, tende a manifestar-se menos em memórias intrusivas e mais em padrões: dificuldade em confiar, autocrítica severa, sensação de não ter direito a ocupar espaço, relações em que se repete algo familiar e doloroso.
O que o corpo guarda
Muitas pessoas procuram ajuda pelo corpo antes de o ligarem a qualquer história.
Sobressalto exagerado a ruídos. Tensão permanente nos ombros e na mandíbula. Sono que não descansa, ou despertares às mesmas horas. Sensação de irrealidade, como se estivesse a assistir à própria vida de fora. Reações intensas e aparentemente desproporcionadas a situações que, racionalmente, não representam perigo.
Nada disto é falta de controlo. São respostas de um sistema nervoso que aprendeu a manter-se em alerta porque, em determinado momento, isso foi necessário — e que não recebeu ainda a informação de que o perigo passou.
É por isso que o trabalho com trauma não pode ser apenas conversado ao nível das ideias. Compreender racionalmente que já está segura não costuma bastar para que o corpo o registe.
O que é a FAP e como se aplica ao trauma
A Psicoterapia Analítica Funcional (FAP) parte de uma premissa central: a relação terapêutica não é apenas um contexto para a mudança — é ela própria um instrumento terapêutico.
Em situações de trauma, muitas das dificuldades surgem precisamente nas relações: desconfiança, hipervigilância, dificuldade em receber cuidado ou em pedir ajuda. Estes padrões não ficam à porta da consulta. Aparecem na relação com a terapeuta, e é aí que podem ser observados e trabalhados enquanto acontecem.
A FAP cria um espaço onde estes padrões podem emergir de forma segura, ser nomeados e trabalhados em tempo real. A terapeuta responde de forma genuína e consistente, oferecendo uma experiência relacional diferente daquelas que podem ter contribuído para o sofrimento.
Para quem aprendeu que mostrar vulnerabilidade traz consequências, ter repetidamente uma experiência diferente é, em si, parte do trabalho.
O papel da ACT no trabalho com trauma
A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) aborda o trauma a partir da relação com a experiência interna.
Muitas pessoas com histórias traumáticas desenvolvem estratégias de evitamento — evitar pensamentos, memórias, sensações ou situações associadas ao acontecimento. Este evitamento, ainda que compreensível e por vezes necessário na altura, tende a manter e amplificar o sofrimento a longo prazo, porque exige um esforço permanente e vai estreitando o espaço de vida disponível.
A ACT trabalha a disposição para estar em contacto com essas experiências internas sem as deixar ditar o comportamento. Não se trata de gostar do sofrimento, nem de o aceitar passivamente. Trata-se de desenvolver a capacidade de o conter enquanto se age em direção ao que é verdadeiramente importante.
Ferramentas como a defusão cognitiva — aprender a observar um pensamento em vez de ser arrastado por ele —, o contacto com o momento presente e a clarificação de valores ajudam a construir uma vida com sentido, mesmo quando a história difícil ainda está presente.
Estabilizar vem primeiro
Há um princípio partilhado por praticamente todas as abordagens sérias ao trauma: não se trabalha o conteúdo traumático antes de existir estabilidade suficiente para o suportar.
A primeira fase do acompanhamento é dedicada a isso. Compreender como o seu sistema reage, identificar sinais precoces de sobreativação, desenvolver formas de regular o corpo, e estabelecer recursos e apoios no dia a dia.
Só depois, e apenas se e quando fizer sentido, se avança para o trabalho de elaboração. Muitas pessoas beneficiam significativamente apenas da primeira fase.
Se em algum momento sentir que a terapia está a avançar depressa demais, dizê-lo é parte do processo — não uma interrupção dele.
O que não deve esperar
Ser claro sobre isto evita expectativas que atrapalham o trabalho.
Não deve esperar que a terapia apague a memória. O objetivo não é esquecer, é reduzir o poder que o passado tem sobre o presente.
Não deve esperar um percurso linear. Há períodos de progresso e períodos de recuo, frequentemente ligados a datas, contextos ou acontecimentos que reativam o sistema.
E não deve esperar ter de provar nada. Não é necessário demonstrar que o que viveu foi suficientemente grave para justificar estar ali.
Quando procurar ajuda com urgência
Há situações que não devem aguardar por uma marcação regular: pensamentos de morte ou de fazer mal a si própria, incapacidade de cuidar de si, dissociação frequente que interfere com a segurança, ou aumento marcado do consumo de álcool ou de outras substâncias.
Em Portugal, em situação de risco imediato, contacte o 112 ou a linha SNS 24 — 808 24 24 24.
Um processo ao ritmo de cada pessoa
O trabalho terapêutico com trauma é gradual. Não existe uma linha de chegada única, nem uma sequência rígida de passos. O ritmo é ajustado à pessoa, ao momento em que se encontra e ao que é seguro explorar em cada etapa.
O objetivo não é apagar o passado. É reduzir o poder que ele tem sobre o presente — e construir, passo a passo, uma relação diferente com a própria experiência.
Pode ver como trabalho o trauma em acompanhamento, perceber como decorre a primeira consulta, ou marcar diretamente.
Preciso de reviver o trauma em terapia?
Não necessariamente. Abordagens como a FAP e a ACT não exigem a reexposição forçada ao acontecimento. O trabalho é feito ao ritmo da pessoa, com foco na relação terapêutica e na construção de flexibilidade emocional. Contar a história em detalhe é uma possibilidade, não uma obrigação.
O trauma pode afetar o corpo?
Sim. Muitas pessoas com histórias traumáticas sentem tensão, sobressalto, alterações no sono ou reações físicas difíceis de explicar. O corpo guarda o impacto de experiências difíceis, e essas manifestações não são imaginárias.
É possível fazer terapia para trauma de forma online?
Pode ser possível, dependendo da situação clínica, da estabilidade atual e da segurança do espaço. É avaliado com cuidado no início do acompanhamento, e em algumas situações a modalidade presencial é preferível.
Tenho de ter um diagnóstico de PTSD para procurar ajuda?
Não. Muitas pessoas com impacto traumático significativo não preenchem critérios para perturbação de stress pós-traumático, e isso não torna o seu sofrimento menos legítimo nem menos merecedor de acompanhamento.
Quanto tempo demora a terapia para trauma?
Não é possível indicar um número de sessões à partida com honestidade. O trabalho com trauma tende a ser mais prolongado do que outros acompanhamentos, sobretudo quando envolve experiências repetidas ou precoces, e a primeira fase é dedicada a estabilização antes de qualquer trabalho de elaboração.
A FAP e a ACT substituem o EMDR ou a terapia cognitivo-comportamental?
Não são alternativas em competição. São abordagens diferentes, com evidência própria, e a escolha depende da pessoa, do tipo de trauma e da fase do processo. Um profissional deve dizer com clareza quando outra abordagem seria mais indicada para o seu caso.
Escrito por
Danielle Liz Rossignoli
Psicóloga clínica em Lisboa, inscrita na Ordem dos Psicólogos Portugueses sob a cédula 28130. Acompanha adultos presencialmente em Telheiras e online para Portugal e Brasil, a partir de terapias contextuais como a ACT e a FAP.
Ver como trabalho trauma em acompanhamento psicológico.